Anatomia e Fisiologia

Conhecer a anatomia do nosso kinguio é

importante para que possamos prover

cuidados adequados na manutenção de

sua da saúde e longevidade.

Texto e ilustrações Rosana Ferreira

ANATOMIA INTERNA

FISIOLOGIA

AUDIÇÃO

Kinguios não possuem ouvidos, mas possuem um grupo de ossículos internos chamados otólitos. A vibração do som entra pela bexiga natatória, se propaga pelos ossículos weberianos e finalmente chega aos otólitos. Esses decifrarão a vibração informando ao peixe a origem do som.
Claro que o alcance do ouvido de um kinguio é menor do que de um humano, mas eles podem captar sons de músicas, batidas no aquário e outras vibrações e isso é estressante para eles. Se o barulho for severo, pode até ocasionar a morte.

OLFATO

Os kinguios podem distinguir vários odores na água (há odores característicos para predadores, alimentos, sinalizadores da época de reprodução, etc), pois o olfato deles é mais apurado do que o nosso. Os odores penetram pelos canais localizados acima da boca e são recebidos por células sensoriais localizadas em uma espécie de placa olfativa. 

RESPIRAÇÃO

Os peixes retiram o oxigênio que está dissolvido na água, através de osmose. As brânquias estão localizadas atrás da cabeça e dos olhos e cobertas pelo opérculo. Tais estruturas funcionam como os nossos pulmões e são compostas de vários arcos branquiais, cada arco possui duas fileiras de filamentos e estes, lamelas finas paralelas. Nessas lamelas, cuja estrutura propicia uma área de grande absorção em pequeno espaço, o sangue flui no sentido contrário ao da água nessas estruturas, ocasionando a troca gasosa do processo de respiração. Nos capilares ali localizados, o  oxigênio entra na corrente sanguínea do peixe, enquanto que o CO² é forçado a sair pelos opérculos.

VESÍCULA GASOSA

É a estrutura responsável pela flutuação do peixe e se apresenta composta de dois pequenos sacos cheios de gás (lóbulos cranial e caudal). Através da vesícula, o kinguio pode se mover na coluna d’água, contraindo ou expandindo o órgão, a partir da pressão externa.  O tecido da vesícula contém guanina, o que a faz impermeável aos gases.
A localização do órgão na região dorsal tem a função de estabilizar o corpo do peixe em sua posição normal, impedindo-o de ficar de cabeça para baixo, além de ajudar na audição.
Algumas variedades de kinguio, principalmente aquelas de corpo mais ovalado, onde os órgãos fazem um padrão de distribuição para baixo e para fora por questão de adaptação ao formato, acabam por ter um espaço muito reduzido para a acomodação das estruturas. Isso pode levar a uma tendência de um problema de flutuação, porque a bexiga natatória pode vir a se desenvolver de maneira inadequada.

CAVIDADE ABDOMINAL – SISTEMA DIGESTIVO E REPRODUTOR

Os ovários, nas fêmeas, estão localizados no meio da cavidade abdominal e produzem os óvulos, enquanto que os testículos, nos machos, produzem o esperma. Já o trato gastrointestinal localiza-se na parte inferior do abdome. O intestino é unido pelo mesentério, este fornece um suporte a este órgão. O fígado se entrelaça ao intestino e armazena hidratos de carbono insolúveis e grandes quantidades de óleos, bem como libera a bile para digestão das gorduras. O pâncreas está anexado a ele. A vesícula biliar está ligada ao intestino e estoca a bile produzida pelo fígado. Há também um baço, localizado próximo da porção dilatada do esôfago, que é responsável pela reciclagem de glóbulos vermelhos velhos.
Os rins estão divididos em duas partes (craniano e caudal). O caudal localiza-se entre os lóbulos da vesícula gasosa em posição superior. Geralmente, em caso de hidropsia este é o rim afetado, pois é o que filtra as substâncias realmente tóxicas e ruins.

DIGESTÃO E OBTENÇÃO DE ENERGIA

Os dentes faringeanos, localizados na entrada do esôfago, são responsáveis por triturar os alimentos. Eles ocorrem em duas filas de quatro, que são movimentadas contra uma placa dura formada pelo palato superior. Essas filas de dentes são suportadas por dois músculos (um de cada lado), que são responsáveis por retirar a água dos alimentos antes da deglutição. 
Para o processo de obtenção de energia, o alimento triturado vai sendo processado ao longo do esôfago, recebendo enzimas digestivas até que se torne líquido, chegando então ao intestino.  Kinguios não possuem estômago, mas sim, uma região dilatada do intestino, que desempenha de forma ineficaz a função de reservatório de alimentos. .
Uma vez no intestino, as enzimas exercem sua ação até que os componentes processados sejam absorvidos pelas paredes do órgão e entrem na corrente sanguinea posteriormente. O material não utilizado é descartado em forma de fezes.
Os nutrientes absorvidos incluem grande quantidade de carboidratos, proteína animal e uma pequena fração de sais inorgânicos.
A energia obtida para os movimentos musculares vem da combustão repentina ocasionada  pelo contato do carboidrato com o oxigênio no tecido muscular. Ambos chegam os músculos via sangue. (Mais detalhes sobre o sistema digestivo dos kinguios abaixo)

 

SISTEMA CIRCULATÓRIO

O coração é formado por duas câmaras, um átrio e um ventrículo apenas. O sangue rico em oxigênio é transportado através de várias aortas menores para a aorta dorsal e dela, várias ramificações fornecem sangue para o resto do corpo.
Depois de abastecer os tecidos e órgãos, o sangue rico em dióxido de carbono passa pelo coração através do seio venoso e segue pela aorta abdominal onde por meio de várias artérias chega as guelras para liberar o dióxido de carbono e capturar oxigênio.

SISTEMA ESQUELÉTICO

O esqueleto do kinguio consiste basicamente de uma coluna, que dá suporte às costelas e às nadadeiras e a um crânio bem desenvolvido em uma das extremidades.  
A coluna é composta por uma sequência de vértebras, as quais são formadas por uma parte curta e cilíndrica (corpo vertebral), côncava em ambos os lados. O fato da coluna ser formada por esses segmentos dá maior flexibilidade ao corpo do peixe. Na região da cauda, especificamente, essas vértebras são mais desconectadas conferindo, portanto, maior mobilidade.
O crânio é formado por muitos ossículos e abriga o cérebro. Um orifício grande (forame magno) permite que a coluna vertebral atravesse os arcos neurais. Há outras aberturas para a passagem dos nervos do olfato e da visão. Os ouvidos estão isolados.
Todas as nadadeiras são suportadas por fragmentos de ossos. A maioria dos raios das nadadeiras são flexíveis, mas em algumas, os três primeiros raios podem ser duros e dão suporte aos raios seguintes.

SISTEMA NERVOSO

Composto por um órgão central que é o cérebro. Este, por sua vez, apresenta lóbulos bem definidos. De seus lóbulos frontais partem nervos olfativos em direção as estruturas nasais e lateralmente,  um par de nervos ópticos, responsáveis pela visão.
A glândula pituitária está acoplada a outro lobo chamado infundíbulo.
Atrás dos nervos ópticos temos o cerebelo, que coordena a resposta muscular aos estímulos sensoriais. Abaixo dele, está a região medular, de onde partem cinco pares de nervos cranianos de cada lado. Semelhantemente, ao longo da extensão da medula espinhal, um par de nervos se destaca por cima e por baixo de cada vértebra e vai se ramificando, a fim de cobrir todas as partes do corpo.

ANATOMIA EXTERNA

LOCOMOÇÃO

Nadadeiras são basicamente controladoras e corretoras do nado. O formato delas, bem como o formato do corpo, são responsáveis pelo grau de eficiência do deslocamento na água.
A flexão dos músculos laterais do corpo e da nadadeira caudal são responsáveis pelo deslocamento, enquanto que as nadadeiras peitorais funcionam principalmente como freio.


VISÃO

Os olhos dos kinguios são providos de células que definem cores e possuem a capacidade de enxergar espectros de luz UV. Além disso, são capazes de ver em baixa luminosidade, tal capacidade é denominada de visão escotópica. No entanto, o posicionamento dos olhos pode limitar sua visão, bem como a ocorrência de certas estruturas em algumas variedades, como por exemplo, as bolsas cheias de fluídos sob os olhos do kinguio Bolha e o Telescópio, com os olhos localizados nas extremidades de seus grandes globos oculares.


ESCAMAS
São originadas na derme, desenvolvem-se sobrepostas umas as outras e seu crescimento acompanha o do peixe, formando anéis de crescimento.
Durante o verão, esses anéis de crescimento são mais espaçados uns dos outros, uma vez que o kinguio cresce mais rapidamente com as altas temperaturas e no inverno, são mais próximos, indicando que o ritmo de crescimento é mais lento durante esse período. Portanto, é possível saber a idade de um kinguio adulto, olhando suas escamas ao microscópio. 
Se uma escama é arrancada por algum motivo, outra voltará a crescer rapidamente, nas não terá os anéis.
Sobre as escamas, encontramos uma epiderme delgada que produz uma camada de muco protetor. Esta está aí para proteger o peixe de parasitas, bactérias, fungos, abrasões e facilitar o deslocamento pela água, uma vez que reduz a tensão superficial. O manuseio incorreto pode danificar seriamente essa camada e deixar o peixe desprotegido.

COLORAÇÃO

As células que conferem a pigmentação dos kinguios chamam-se cromatóforos e iridócitos.
Os cromatóforos são os responsáveis pelas cores verdadeiras dos kinguios, através de sua contração e dispersão. 
Os iridócitos são células reflexivas e são responsáveis pelo efeito metálico do peixe. Esse efeito é dado pela presença da guanina, que ao contrário dos cromatóforos não é expansível.
O pigmento preto está presente em todas as cores em menor ou maior quantidade, às vezes sob os iridócitos. 
A combinação desses tipos de células é o que resulta na infinidade de padrões de cores que vemos dentre os kinguios. Assim temos as escamas metálicas, com muita guanina, as escamas nacaradas com concentração menor de guanina e as escamas mate, sem nenhuma guanina.
É comum vermos kinguios mudarem de cor, mas há vários fatores envolvidos nisso tais como alimentação, idade, iluminação e saúde.

LINHA LATERAL

Também detecta vibrações, além de pressões, movimentos na água e correntes. Percorre todo o corpo do peixe lateralmente (da cabeça ao pedúnculo caudal). Ao longo do seu comprimento estão localizadas as terminações nervosas capazes de captar inclusive, as oscilações de temperatura. Tais terminações formam um canal em ambos os lados do corpo.

SISTEMA DIGESTIVO DOS KINGUIOS

Roberta Correa 
Cristiano Souza

Neste artigo mostraremos detalhes muito interessantes sobre o trato digestivo desses magníficos peixes. Desde a sua mastigação até a eliminação dos desejos alimentares, mostraremos características morfológicas adquiridas ao longo de sua evolução e que despertam ainda mais nossa curiosidade sobre esses animais incríveis.

O trato digestivo do Carassius auratus é muito interessante pelo fato de não possuir um estômago funcional, isso significa que cada parte do seu intestino executa funções distintas as quais normalmente o estômago faria. Tipicamente duas vezes mais longo que o corpo do peixe, o trato digestivo é dividido em partes que remetem a várias atribuições específicas. 
De forma geral o percurso do alimento consiste em:
Boca -> Faringe-> Esôfago-> Intestino-> Ânus.

A MASTIGAÇÃO
Os Kinguios estão constantemente a procura de alimentos. Muitas vezes vemos o peixe abocanhar o alimento, mastigar e logo em seguida cuspir, isto se dá porque os kinguios possuem dentes faríngeos, ou seja, o alimento é triturado na faringe por um conjunto de oito dentes faríngeos (quatro de cada lado) na parte inferior, contra uma plataforma de mastigação serrilhada na parte superior, até que o alimento esteja do tamanho ideal para passar pelo esôfago. Caso não esteja (do tamanho certo), pode haver obstrução no esôfago e instintivamente ele cospe. Não necessariamente seria uma rejeição do alimento, devido ao sabor ou outro motivo, mas um mecanismo de autodefesa instintivo. Há de se considerar também que as células gustativas podem detectar dejetos, fazendo o peixe cuspir de igual modo.

Esses pequenos dentes achatados e não afiados se desgastam facilmente e logo são substituídos continuamente por toda sua vida. Cada dente tem em sua base um outro

dente em desenvolvimento pronto para apontar assim que o dente em destaque for

cuspido pelo peixe. Para aqueles que utilizam um sistema bare bottom facilmente

encontra esses pequenos dentes.

O ESÔFAGO
O Esôfago é revestido por células gustativas e pequenos pelos musculares que se contraem em contato com o alimento por mais leve que seja. É uma forma de proteção para evitar a entrada de água em excesso (apenas o necessário). O bolo alimentar é impulsionado por uma espécie de muco até chegar ao intestino.  
O verdadeiro processo digestório se inicia a partir da habilidade digestiva do intestino de absorver nutrientes, onde o caminho é mais longo e sinuoso. 

O INTESTINO
O Intestino é segmentado por Bulbo intestinal/intestino médio e intestino caudal/intestino posterior. 
O Bulbo intestinal tem sua capacidade expansiva de até três vezes seu tamanho normal para armazenar temporariamente o bolo alimentar.
O Intestino caudal não tem a mesma capacidade expansiva e seu diâmetro é mais reduzido se comparado ao bulbo intestinal. 
Todos os nutrientes serão absorvidos por órgãos auxiliadores que trabalham concomitantemente, catalizando enzimas que digerem as proteínas, carboidratos, lipídios, aminoácidos e íons diversos. Por final o que não foi digerido será excretado em forma de urina ou fezes pelo orifício anal. O movimento peristáltico trabalha de forma plena com temperaturas mais elevadas (épocas quentes), tendo seu processo desacelerado em épocas mais frias. Portanto, a alimentação em períodos frios deve ser reduzida para que o bolo alimentar não permaneça dentro do intestino por muito tempo, causando problemas patológicos.  

ESTÔMAGO? TEM OU NÃO TEM?
Tem sido assunto de debate no mundo todo, alguns gostam de chamar de estô
mago residual ou estômago primitivo ou bulbo intestinal. É fato que nos Kinguios há uma estrutura dilatada no esôfago, e é aí que reside a polêmica.
O que é um estômago? Por definição é uma estrutura curvada, muscular e semelhante a um saco, que é uma ampliação do canal alimentar entre o esôfago e o intestino delgado. 
Dr. Brian Jones nos diz: 
“About 15% of teleosts, including cyprinids, have no stomach and no region of low pH or pre-digestion. Anterior portion of intestine has some storage function, intestine in these species is usually very long compared to, say, a trout”

Traduzindo: 
“Cerca de 15% dos teleósteos, incluindo os ciprinídeos, não têm estômago e nem região de baixo pH ou pré-digestão. A porção do intestino tem alguma função de armazenamento e tal órgão nestas espécies é geralmente muito longo em comparação com, digamos, uma truta”.

Apesar de não funcional, essa estrutura dilatada entre o esôfago e intestino, não possui função de digestão ou nem mesmo pré-digestão conhecida ou estudada por pesquisadores até o momento. Portanto, com base nesses argumentos, podemos afirmar que os Kinguios não possuem estômago.

CONCLUSÃO 
Compreender sobre o sistema digestório nos leva sempre a buscar por alimentos que se adequem às necessidades do peixe. É preferível fracionar a alimentação em pequenas porções ao longo do dia ao invés de uma grande e única refeição. Isto é vital para o bem-estar do Kinguio, já que o processo de digestão é lento, permitindo que todas as substâncias solúveis sejam assimiladas conforme o necessário, sem sobrecarregar o mesmo.

Foto: Mário Barros