Coloração

É inegável que as cores tecem um belo complemento visual junto as formas

desses magníficos peixes.

Cristiano Souza

cromatóforos

Os cromatóforos são células que contêm pigmentos que refletem a luz e são encontrados em uma ampla gama de animais: anfíbios, répteis, crustáceos, cefalópodes e peixes. Essas células especializadas são amplamente responsáveis pela geração da cor da pele e dos olhos em animais ectotérmicos (coloquialmente, animais de "sangue frio") e são gerados na crista neural durante o desenvolvimento embrionário. Cromatóforos maduros são agrupados em subclasses com base em sua cor sob luz branca: Xantóforos (amarelo), Eritróforos (vermelho), Iridóforos (reflexivo/iridescente) e Melanóforos (preto/marrom).

cor silvestre

Essa cor, comumente chamada de cor selvagem, foi herdada geneticamente do seu ancestral, a Carpa Cruciana (Carassius carassius), que é uma combinação de cromatóforos muito particular de Eritróforos, Xantóforos, Iridóforos e Melanóforos. Os Melanóforos contêm Eumelanina, um tipo de melanina que confere uma cor preta ou marrom escura por causa de suas qualidades de absorção de luz. É embalado em vesículas chamadas Melanossomas e distribuídas por toda a célula. A Eumelanina é gerada a partir da Tirosina em uma série de reações químicas catalisadas. A principal enzima na síntese de melanina é a tirosinase. Quando esta proteína é defeituosa nenhuma melanina pode ser gerada, resultando em certos tipos de albinismo. Os exemplares de Kinguios com cerca de três ou quatro meses começam a desenvolver um processo de eliminação da melanina restando apenas Eritróforos e Xantóforos. No final temos como resultado as cores branco com vermelho ou vermelho com laranja.

aspecto metálico

O aspecto de cor metálico se origina em uma camada, placas de quimiocromos cristalinos composto de Guanina, um pigmento cristalino que refrata a luz. A Guanina é considerada um pigmento de células chamadas Iridóforos ou Guanóforos e produz também efeitos opacos. Quando existem células de pigmento vermelho ou preto que recobrem a Guanina, aos nossos olhos vemos um vermelho ou preto brilhantes. Quando não há outras células de pigmento que recobrem a Guanina, o nosso olho vê uma cor branca ou prata brilhante. Os nossos Kinguios com cores metálicas podem ser laranja, vermelho, branco, amarelo, preto, azul (acinzentado), roxo, marrom, bronze ou uma combinação variada desses exemplos citados, e que por muitas vezes podem ser chamados de “bicolores”, “tricolores”, "malhados" ou "manchados".

Foto Mário Barros

Veltail de coloração prateada

vermelho e branco

Chamados também de “Red White” mundo a fora ou “Kohaku” em japonês, essa outra linda intercorrência de cor na categoria Metálica se caracteriza normalmente por um peixe de predominância branca com majestosas manchas ou “manto” vermelho bem definido. O oposto também é perfeitamente possível. Praticamente em todos exemplares desse caso há uma proporção muito maior de Eritróforos do que Xantóforos. Sendo que os Eritróforos são produzidos a uma taxa bem alta de modo que o vermelho se sobressaia perante o amarelo.

preto

Foto Mário Barros

Red and white Oranda 

Quando, por fatores genéticos, o processo de eliminação da melanina não ocorre na fase juvenil do Kinguio ele se torna preto. Apesar de muito menos numerosos, os Eritróforos e os Xantóforos continuam presentes, o que explica a cor mais tênue no abdômen dos Kinguios, sendo estes os mais prováveis de terminarem o processo de eliminação da melanina em alguma fase de sua vida. Em Kinguios das variedades Orandas, Ranchus, Lionheads, etc, tendem a ser mais estáveis do que os Kinguios Telescópios.

Foto Fernanda Akiko

Contudo, combinações de vermelho com preto e/ou branco são raras e não há como garantir a fixação dessas cores ao longo de sua vida. Existe um fenômeno de translocação de pigmentos dentro de seus cromatóforos, resultando em uma aparente mudança de cor no corpo, podendo adquirir tons muito escuros ou enfraquecer proporcionando uma cor acinzentada. Este processo é fisiológico e mais amplamente estudado em Melanóforos, uma vez que a melanina é o pigmento mais escuro e mais visível aos nossos olhos. Já foi demonstrado que os processos da translocação de pigmentos podem estar sob influência hormonal, neuronal ou ambos. Em recentes estudos apontam que os Cromatóforos podem responder diretamente a estímulos ambientais como luz visível, UV, temperatura, pH, produtos químicos e medicamentos. Manchas negras podem surgir em Kinguios devido a fatores externos como queimadura por amônia ou ferimentos, resultando em uma área enegrecida. Isso ocorre justamente por causa da melanina na forma livre, cuja resposta na derme pode ser acionada por uso de medicamentos também. A maioria das ocorrências de cor preta em Kinguios caracterizam-se por ser instáveis.

panda

Os exemplares que em determinadas partes dos seus corpos eliminam a melanina desenvolvem a característica que chamamos comumente de PANDAS. Devido a existência dos demais Cromatóforos, (Xantóforos e Eritróforos), uma dieta que contenha carotenoides podem irreversivelmente mudar a cor desses exemplares de Kinguios. O que requer uma dieta muito controlada e rigorosa por parte do criador/piscicultor.

Foto Mário Barros

Foto Mário Barros

Panda Oranda

Foto: José Roberto

chocolate

A cor popularmente chamada de chocolate é de aparência metálica bronze ou esverdeado, muito próximo a cor silvestre da Carpa Cruciana. O que aos nossos olhos são impressos na cor “chocolate” na derme encontramos os três cromatóforos: Xantóforos, Eritróforos e Melanóforos, contudo permite-se duas combinações possíveis para que a característica de chocolate seja marcante. Se por um lado há mais Melanóforos para proporcionar um castanho típico de “chocolate” a outra combinação possível seria no aumento discreto do número de Xantóforos, que concede ao exemplar um aspecto esverdeado ou acinzentado.

azul

Na derme desses exemplares ocorre uma dispersão muito particular na disposição dos Cromatóforos em especial os Melanóforos. Essa disposição distribuída dos Melanóforos aliada na ausência de Xantóforos e Eritróforos proporciona uma coloração acinzentado tendendo para o azul. Há raras ocorrências de uma combinação Xantóforos, Eritróforos e Melanóforos localizados em formas de manchas aleatórias imprimindo aos nossos olhos uma mancha amarronzada. Se por ventura surgir manchas na derme de coloração amarela ou vermelha estes tendem a ser fixas por toda a vida do peixe. Se por razões genéticas, ocorrer fora de época, o processo de eliminação da melanina, o exemplar categorizado como azul torna-se branco. E se o exemplar de Kinguio desenvolver antes manchas amarronzadas e pelos mesmos motivos genéticos, ocorrer o processo de eliminação da melanina, o resultado final será um Kinguio branco com manchas marcantes vermelhas.

rosados/ foscos (opacos)

Os Kinguios opacos ou foscos normalmente têm um tom rosado e isso ocorre devido ao sangue na derme do peixe. Esse efeito só é possível, graças a genética que não favoreceu ao surgimento dos pigmentos de cor Xantóforos, Eritróforos e Melanóforos. Nem tão pouco ele possui a Guanina que confere a característica metálica ao peixe. A ocorrência de Kinguios foscos coloridos é muito rara. Quando cruzamos dois Kinguios de cor metálica estes produziram 100% de descendentes de cor metálica. Dois Kinguios com gene mutante para escamas foscas produzirão 100% de descendentes foscos. Esses resultados significam que os genes metálicos e foscos são homozigotos, isto é, o peixe tem duas doses do gene metálico ou fosco. A cor rosada é heterozigótica, pois tem uma dose do gene metálico e fosco também. Isso se comprova quando cruzamos dois Kinguios rosados, cujo resultado observamos que é de 50% de rosados, 25% de metálicos e 25% de foscos. Quando cruzamos um Kinguio de cor metálica com um de cor rosada, 50% nascem metálicos e 50% nascem rosados.

Foto Mário Barros

Veltail: a coloração rosada pode ser observada no corpo do peixe.

cÁlico/kirin

Algumas escamas têm uma camada sólida de guanina na parte inferior e pigmentos de cor na camada superior o que proporciona uma cor metálica normal. Há também outras escamas transparentes com um acabamento fosco, mas com a presença da guanina em camadas superiores, imprime aos nossos olhos um brilho perolizado nas escamas claras. Pigmentos de cor tanto em cima da escama quanto abaixo da 

Foto Mário Barros

Bristol Shubukins com sua classica coloralçao Calico

mesma, ou na derme, têm um efeito notável na cor que nossos olhos percebem. Pigmento preto na escama parece negro aos nossos olhos. Pigmento preto nas camadas superiores da pele parece acinzentado. Pigmento preto mais profundo na derme parece azul aos nossos olhos. Pigmentos vermelhos e amarelos podem se manifestar em vermelho, amarelo e laranja ou, em combinação com preto, podem criar tons de roxo, marrom e outros. Nas últimas décadas um tipo especial de Kinguio Cálico, o chamado Kirin, foi desenvolvido. Quando dois Kinguios tradicionais são cruzados, 50% dos descendentes são cálicos, 25% são metálicos e 25% são foscos. Quando dois Kinguios cálicos Kirins são cruzados, há menos metálicos verdadeiros. Kinguio Cálico Kirin muitas vezes têm significativamente mais preto do que o tradicional Cálico. A cor preta pode ser difusa na maioria dos peixes e pode ocorrer em manchas densas e distintas. Os Kinguios Cálicos Kirin também tendem a ter mais escamas metálicas intercaladas com as escamas claras.

realçando cores

A intensidade de cor de um Kinguio é influenciada pelo ambiente e pela dieta. Os Kinguios são mantidos em tudo, desde aquários internos a lagoas ao ar livre. As cores serão menos intensas em iluminação fraca. A iluminação artificial irá superar parcialmente este problema. Mas, a alta iluminação produz algas e aumenta drasticamente a manutenção do aquário. Além disso, mesmo quando você tenta imitar o espectro de luz solar (cerca de 6.000 Kelvin), a iluminação artificial geralmente não produz a intensidade de cor alcançada em um lago externo. Isto pode ser devido a outras diferenças na iluminação natural e artificial, como a ausência de UV ou pode estar relacionado à dieta. Em lagoas ao ar livre, o vermelho é mais vibrante e menos laranja, enquanto o preto se torna mais escuro e mais profundo. No entanto, o branco geralmente sofre em um lago ao ar livre e pode ter uma coloração amarelada. Isto parece ser um resultado do consumo de algas ou outras plantas que contém grandes quantidades de Xantofila, um pigmento amarelo. O fato de que a cor vermelha é intensificada (parece menos laranja) mesmo quando o peixe está ingerindo grandes quantidades de Xantofila, é um paradoxo porque os Eritróforos ocorrem em combinação com Xantóforos. Evidentemente, os Eritróforos são capazes de sobrecarregar os Xantóforos fazendo a cor parecer mais vermelha aos nossos olhos.

Os alimentos industrializados para Kinguios muitas vezes têm altos níveis de intensificadores de cor como Astaxantina e outros Carotenóides de crustáceos e Spirulina. Existem vários problemas associados ao uso exclusivo de rações industrializadas e um deles é o aumento excessivo de cor em algumas marcas. A Astaxantina aumenta os pigmentos vermelhos. Isso funciona bem para Kinguios com base de cor vermelha muito destacada. No entanto, a maioria dos Kinguios também tem alguma variedade branca. O excesso de Astaxantina fará com que o branco fique rosado e o vermelho passe para as áreas brancas. Já os pigmentos amarelos e pretos não serão afetados pelos intensificadores de cor usados em rações comerciais

O efeito da dureza da água no desenvolvimento da cor parece ser menos evidenciado nos Kinguios do que nas Carpas. Uma água muito dura intensificará o preto até certo ponto. Mas a água mole não parece importante para manter o vermelho e o branco. A manipulação da dureza, muitas vezes resulta em instabilidade, por isso, pode ser melhor deixar a dureza do seu ambiente ser estável, desde que exista alcalinidade suficiente para evitar uma queda do pH.

conclusão

Tudo que fazemos para melhorar a cor ajudará em alguns aspectos, mas também terá efeitos colaterais adversos. — O que um mantenedor ou criador de Kinguios deve fazer? Talvez a melhor abordagem seja desenvolver bom senso e usar tudo com moderação. Fornecer iluminação, mas não muito. Concentre seus esforços em proporcionar qualidade de água e uma dieta que foque na saúde dos peixes e deixe a genética, ou melhor, deixe a cor cuidar de si mesma.

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Foto: Mário Barros