Genética

Introdução a genética de Kinguios

Este texto é o primeiro de uma série na

qual pretendemos apresentar características genéticas do peixe Carassius auratus auratus. 

TEXTO E FOTOS:

Prof. Mauro Schettino de Souza

Os peixes dourados modernos, cujo nome escrito com os caracteres chineses 金魚 onde 金=ouro e 魚=peixe são também conhecidos como goldfish em lingua inglesa, como kin iu em chinês, como kingyo em japonês e como kinguio em português, vocábulo este adotado pela Sociedade Brasileira de Kinguios, têm como seu precursor uma carpinha originária na China. Essa carpinha era criada comumente em pequenos tanques em cativeiro como hoje se cria galinha nos quintais de casa, devido ao hábito de consumo de carne de peixe entre os asiáticos. Em idos tempos, esse peixe sofreu uma mutação genética que resultou em uma mudança de coloração ocasionada pela perda do pigmento melanina devido a morte dos melanócitos (células produtoras de melanina, um pigmento marrom escuro).  

Coloração natural sem ter sofrido a despigmentação da melanina.

Em 1954, o geneticista chinês Shisan C. Chen publicou em chinês na Acta Zoologica Sinica, Vol. VI, Nº 2, pp 89-116 o artigo intitulado “A história da domesticação e os fatores da formação das variedades do peixe dourado comum, Carassius auratus”. Posteriormente, em 1956, Chen republicou na Scientia Sinica, Vol. 5, pp 287-321 em Inglês “A History of the Domestication and the Factors of the Varietal Formation of the Common Goldfish, Carassius auratus”. Nesse artigo, ele apresenta informações baseadas em antigas histórias e publicações chinesas sobre a existência do cultivo de peixes dourados durante a dinastia Sung (por volta do ano 1163) em tanques exclusivamente destinados a esta finalidade. Quem se interessar por detalhes do surgimento dos peixes dourados e das primeiras variações de cor e forma dentro de um dado espaço temporal, sugiro a leitura do texto acima citado, que é muito esclarecedor. 

Início de despigmentação, observe que ela ocorre do ventre para o dorso.

Em 1977, Takao Kajishima, pesquisador do Biological Institute, Faculty of Science, Nagoya University, publicou no periódico Genetics, Vol. 86, Nº 1, pp 161-174 o artigo intitulado “GENETIC AND DEVELOPMENTAL ANALYSIS OF SOME NEW COLOR MUTANTS IN THE GOLDFISH, CARASSIUS AURATUS”, no qual descreve seus estudos feitos sobre diferentes tipos de colorações do peixe dourado e reporta-se a mutação ocorrida, lá no passado, relativa a despigmentação que ocorre devido a morte dos melanócitos ao longo da vida. Ao estudar essa característica de despigmentação por meio de vários cruzamentos sistematizados, ele constatou tratar-se de um evento determinado geneticamente e controlado por dois pares de genes dominantes: Dp1 e Dp2, e concluiu que somente os exemplares com os dois pares recessivos de alelos dp1dp1 e dp2dp2 conseguem reter seus melanócitos a
ao longo da vida. Isso vem de encontro aos diversos questionamentos que surgem com muita frequência entre os aquaristas sobre mudanças na coloração de seus peixes ao longo do tempo. O processo de perda de pigmento de melanina nos peixes que têm os genes de despigmentação geralmente começa entre o final do segundo e início do terceiro mês de idade, ainda em estágio de alevinos. No entanto, peixes com um, dois, três anos ou até mais, isto também pode ocorrer, uma vez que sejam portadores de algum gene de despigmentação. A explicação para a despigmentação precoce ou tardia se deve ao número de genes responsáveis pela perda de melanina que o peixe seja portador. Sendo assim, quanto menos genes promotores da despigmentação o peixe tiver, mais demorado será o período necessário para o início do processo de despigmentação, em função de uma expressão gênica mais tardia.

Despigmentação total da melanina.

A diversidade de variedades de Kinguios hoje existentes é resultante, portanto, de mutações que foram selecionadas por criadores desde épocas remotas. Nos próximos textos, iremos abordar as variedades existentes, destacando as principais características de cada uma delas.
Referências: 
Chen, S.C. (1956) A History of the Domestication and the Factors of the Varietal Formation of the Common Goldfish, Carassius auratus. Scientia Sinica 5: 287-321.
Kajishima, T. (1977) Genetic and developmental analysis of some new color mutants in the goldfish, Carassius auratus. Genetics 86: 161-74.

Foto: Mário Barros