Foto: Mário Barros

Kinguio

Contexto Histório

1700 anos de história e tradição

Solange Nalenvajko

China: o início.

Todas as variedades de kinguios que conhecemos hoje descendem de uma carpa selvagem (Carassius carassius) conhecida como carpa crucial, originária da região leste da China. De aparência similar ao kinguio comum, possui corpo cinza prateado com dorso escuro e ventre mais claro, podendo atingir 50 cm de comprimento, embora o tamanho mais comum seja entre 20 a 45 cm.

Inicialmente a criação destas carpas era feita em lagoas e com a finalidade de corte. Embora haja dúvidas quanto à veracidade da informação, de acordo com estudos arqueológicos, a referência mais antiga sobre esta prática remete à dinastia Han ((25 – 189 d.C.).

Com o passar do tempo, das carpas selvagens mantidas em lagoas de criação começaram a surgir alguns descendentes com uma mutação genética espontânea, sendo a cor naturalmente cinza do peixe substituída por uma coloração vermelha ou dourada. Separando-se estes peixes dos demais, gradualmente surgiu uma nova população de carpas coloridas. Os primeiros relatos sobre este evento remontam à dinastia Chun (265 – 419 d.C.).

Na dinastia Sung (960 – 1279 d.C.) surge o primeiro lago privado construído no palácio Te Shou na cidade de Hangzhou, por volta de 1163.  Lagos com estes peixes coloridos podiam ser encontrados em templos budistas e nas residências da família imperial e pessoas nobres. À exceção dos monges budistas, a família real era a única a possuir estes peixes na cor amarela (dourada), já que o amarelo era a cor imperial.  Esta é uma possível razão que justificaria a maior quantidade de peixes alaranjados e vermelhos, mesmo sendo os amarelos geneticamente mais fáceis de reproduzir.

Deste período também há referências ao fato de que em ocasiões especiais os peixes mais bonitos eram retirados dos lagos e colocados em recipientes menores para serem apreciados pela família e convidados.

 

KINGUIOS DE LINHAGEM

Pode-se considerar que foi na dinastia Sung que surgiu efetivamente um novo peixe, diferente da carpa crucial: o kinguio comum.

Na dinastia Ming (1368 – 1644 d.C.), famosa por suas porcelanas, ocorre um enorme salto na criação e desenvolvimento de novas variedades de kinguios. Os peixes, antes mantidos em lagos, passam a ser criados dentro de casa em grandes vasos, bacias e cubas de cerâmica.  Trazer os kinguios de lagos para cubas tornou a criação acessível a mais pessoas (tanto nobres como comuns), tornando o kinguio um animal de estimação.

 

Foto: Fernanda Akiko

Foto:Mário Barros 

Calico Fantail

kinguio Bolha negro 

Com a possibilidade de um acompanhamento mais próximo dos peixes, novas mutações puderam ser observadas de forma imediata. Isto permitiu a separação e cruzamento seletivo destes exemplares até que estas novas características se fixassem, gerando assim novas variedades.  Cauda dupla, olhos de formato diferente, ausência de nadadeira dorsal, coloração cálico, corpo mais curto e arredondado, são características conseguidas neste período.  Cabe mencionar também que o kinguio começa a ficar mais distante da carpa crucial e mesmo do kinguio comum. Assim, as novas variantes se tornam cada vez um pouco mais inaptas e impróprias para sobreviverem em um ambiente natural.

No transcurso desta dinastia também encontramos o que seria reconhecido como o primeiro livro sobre aquariofilia, escrito pelo chinês Chang Chi’en Te e publicado em 1596: O Livro do Peixe Vermelho  (Chi Shayu Pu), que ensinava  como proceder para alimentar, trocar a água, limpar os recipientes e protege-los do frio.

A dinastia Qing (1644 – 1911 d.C.) foi a última dinastia da China imperial e, no que se refere a kinguios, muito profícua em novas variantes. São deste período o surgimento das cores preta e azul, o desenvolvimento de wen e variedades como o celestial, pompom, bolha e pérola.

Foto:Mário Barros 

Show grade AAA kinguio Pérola fotografado em Londres Reino Unido

Da China para o mundo.

Data do início do século XVI a importação dos primeiros kinguios chineses pelo Japão, os quais chegaram ao país pelo porto da cidade de Sakai em 1502. Uma das supostas primeiras variedades importadas assemelhava-se ao Wakin, cuja tradução é “kinguio japonês”.

Inicialmente, devido a seu alto preço, os kinguios eram mantidos apenas pela nobreza, samurais do alto escalão e comerciantes prósperos, sendo que somente ao final do século XVII estes peixes começam a se difundir pelo restante da população.

Entre 1600 – 1868 (Período Edo), o governo japonês fecha seus portos, mantendo apenas um comércio esporádico com a Holanda. Mesmo com poucas e espaçadas importações, alguns novos kinguios conseguiram chegar ao Japão através dos navios holandeses, entre eles  as variedades Maruko (China) e Oranda (Holanda).

Foi durante este período que os japoneses iniciaram a reprodução seletiva de novas variedades a partir dos peixes que já existiam no país e dos poucos kinguios que ainda chegavam via navios holandeses. Surgiram kinguios com corpo mais compacto e nadadeiras mais longas e fluídas, próprios para serem observados com uma visão superior.  Deste período encontramos kinguios como o Jikin – surgido em torno de 1610 na região de Owari - e o Tosakin, registrado pela primeira vez na cidade de Kochi em 1845.

Os kinguios chegaram à Europa a partir do início do século XVII, disseminando-se gradualmente pelos países do sul europeu. O primeiro país a recebê-los foi Portugal, em 1611, enquanto que na Inglaterra sua introdução data de 1691. Em meados de 1700, os kinguios foram criados independentemente na Holanda, marcando as primeiras variedades não chinesas na Europa. Na França há indicação de sua entrada pelo porto de L’Orient, construído para receber os navios da Companhia das Índias. Em 1750 os chineses presentearam madame Pompadour (amante do rei Luiz XV) com kinguios.

Os peixes eram muito apreciados por seus formatos e escamas metálicas e costumavam ser associados à fortuna e boa sorte.  Tornou-se uma tradição que os homens presenteassem suas esposas com um kinguio no primeiro aniversário de casamento, como símbolo do desejo de  prósperos anos vindouros.

Shows de kinguios são muito populares na Europa, eventos como esse organizado pela Goldfish Society of Great Britan se tornaram uma tradição anual, aonde criadores de todo o Reino Unido tem a oportunidade de apresentar seus peixes em uma competição super amigável.

Foto:Mário Barros 

Na América, os kinguios chegam a território estadunidense em 1872 trazidos pelo contra-almirante Ammen, da Marinha dos EUA, que os apresentou ao Departamento de Pesca em Washington, DC, onde foram colocados em tanques para reprodução.

No Brasil, a introdução de kinguios ocorreu na década de 1920 por Sigeiti Takase, imigrante japonês que trouxe consigo cerca de 50 espécies asiáticas, principalmente ciprinídeos e ananbatídeos, que passou a criar em uma chácara em Petrópolis, no Rio de Janeiro.

Na dinastia Sung o kinguio passa a simbolizar a riqueza e abundância na cultura chinesa. Era chamado de jin yu, sendo que “jin” significa ouro e “yu” peixe, com o porém de que a pronúncia é similar à pronúncia do caractere utilizado para a palavra “abundância”.  Conforme o Feng Shuei até mesmo ter uma pintura de peixe dourado traz boa sorte ao seu dono.

 

Curiosidades

Embora o nome seja único, o “apelido” varia de país para país. Aqui temos alguns exemplos de nomes comuns ou populares pelos quais o Carassius auratus é conhecido mundo afora.

Caras aurio (România)  - Pimpão (Portugal) – Pez chino (Argentina) – Pesce dorato (Itália) – Guldfisk (Dinamarca) – Poisson rouge (França) – Karas zlocisty (Polônia) – Cyprin doré (Canadá) – Chrysopsaro (Grécia) - Kin-buna (Japão) - Kirmizi balik  (Turquia) – Karas (Ucrânia)

 

Entre todas as variantes de kinguio existentes, o Cometa é a única originária dos Estados Unidos, surgindo pela primeira vez nas lagoas da Comissão de Peixes em Washington no início da década de 1880.

 

Referências.

https:// http://www.tgs-aquascaping.com/history/

http://www.fishbase.org/ComNames/CommonNamesList.php?ID=271&GenusName=Carassius&SpeciesName=auratus&StockCode=285

http://www.elgoldfish.com/origenes.html

https://thefishsite.com/articles/cultured-aquatic-species-crucian-carp

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