Reprodução

Já pensou em reproduzir seus Kinguios? Nesse artigo você encontra dicas valiosas sobre técnicas de reprodução além do cuidado com ovos e alevinos

Mário Barros

É uma realização para qualquer aquarista reproduzir seus peixes e acompanhar o desenvolvimento dos ovos e alevinos. O kinguio é uma espécie criada artificialmente há mais de um milênio a partir de uma carpa selvagem e é uma das primeiras espécies de peixe domesticadas para fins ornamentais. Metódica seleção artificial desenvolveu centenas de variedades, todas elas com suas particularidades e que hoje pouco relembram seus antepassados. Embora existam centenas de variedades de kinguios todas elas por mais diferentes que pareçam uma das outras pertencem à mesma espécie Carassius auratus auratus (Linneaus 1758) e são intercruzantes, isto é, independente da variedade eles podem se reproduzir e produzir descendência fértil. Ou seja, um kinguio Comum pode

Foto: Mário Barros

Ryukins prontos para reprodução, nesse caso Mops feitos como linha de tricô foram utilizados como superfície para desova.

cruzar com um Ranchu ou um Telescópio pode cruzar com um Oranda, não importa a combinação que você imaginar, se forem Kinguios Carassius auratus auratus eles irão se reproduzir e sua descendência será fértil. Existe é claro uma proximidade muito grande entre os kinguios e as carpas, principalmente as do gênero Carassius eles são parentes muito próximos e pertencem à mesma família Cyprinidae e existe até a possibilidade de kinguios cruzarem com as carpas e produzirem filhotes, porém, normalmente sua descendência é estéril e assim estão isoladas reprodutivamente uma da outra. Existem vários gêneros, subgêneros ou subespécies dentro dessa grande família Cyprinidae e dependendo do cruzamento, o Carassius Auratus Auratus (nosso kinguio) pode se reproduzir e possuir descendência fértil com alguma subespécie de carpa do qual são diretamente ligados como por exemplo a Carpa Crussiana (Carassius auratus carassius).

Seleção de matrizes

Foto: Mário Barros

Esse belo exemplar de Kinguio Véu apresenta todas as características físicas tão apreciadas na variedade. Para que essas particularidades sejam passadas às próximas gerações é importante reproduzi-lo com exemplares de mesmo padrão.

Aprendemos que existem diferentes variedades de kinguios e que embora todas sejam intercruzantes para que certas características se mantenham é importante selecionar para reprodução apenas membros pertencentes à mesma variedade. Criadores experientes costumam escolher seus reprodutores meticulosamente de acordo com os standards da associação, clube ou sociedade da qual faz parte. Além disso, busca por detalhes específicos como por exemplo uma coloração ou formato de wen e assim vai lapidando geração após geração as características que mais lhe atraem dentro das possibilidades que aquela variedade oferece.

Os kinguios estão aptos a procriar a partir de um ano de vida, alguns muito antes disso, porém, kinguios muito jovens irão produzir uma quantidade de ovos ou esperma muito pequena. 

Seu pico reprodutivo vai do segundo ao quarto ano de vida e após isso é normal um declínio gradual. Importante procurar por exemplares ativos e saudáveis. Como uma fêmea pode depositar centenas de ovos em apenas uma desova é aconselhável uma proporção maior de machos que fêmeas, normalmente dois a três machos para uma única fêmea. Isso irá aumentar a probabilidade dos ovos serem fertilizados (principalmente na reprodução natural).

Dimorfismo Sexual

Existe dimorfismo sexual entre kinguios, porém é mais facilmente observado em peixes com mais de um ano e principalmente durante a época de reprodução.

  • Tubérculos reprodutivos (breeding stars). Os machos irão apresentar uma série de pontinhos brancos normalmente em suas nadadeiras e opérculo; fora da época de reprodução esses pontinhos irão diminuir ou até desaparecer por completo. Não confunda tubérculos reprodutivos com contaminação por íctio,  que é um protozoário parasita e nesse caso os pontinhos brancos irão aparecer de modo aleatório por todo o corpo do peixe. Em casos atípicos devido a alguma disfunção hormonal fêmeas podem vir a apresentar esses tubérculos, porém são casos raros. Costumo ter por certo que o kinguio é macho se apresentar os tubérculos reprodutivos.

  • Nadadeira peitoral. Normalmente a nadadeira peitoral do macho é mais grossa na parte anterior onde posteriormente os tubérculos reprodutivos irão aparecer.

  • Formato do corpo. Embora os kinguios possuam uma morfologia muitas vezes tão extrema que pouco relembra seus antepassados, se compararmos indivíduos da mesma variedade e idade, normalmente as fêmeas possuem um corpo mais baixo e arredondado que os machos (não tentem utilizar essa característica com os Kinguios Pérola).

  • Formato do vent (ânus). Durante a época de reprodução a fêmea irá apresentar uma pequena protuberância em seu vent, isso é, possui formato convexo (para fora) um tipo de ovopositor irá se formar. Nos machos esse vent é côncavo (para dentro).

  • Comportamento. Durante a reprodução os machos irão perseguir as fêmeas incansavelmente até que elas desovem, Já presenciei fêmea perseguindo fêmea para se alimentar dos ovos, então cuidado para não se precipitar na identificação.

  • Reprodução de fato. Apenas a fêmea produz ovos e apenas os machos produzem esperma, essa é a maneira 100% garantida para saber quem é quem.

Foto: Mário Barros

Casal de Fantails Cálico, o macho (esquerda) possui um corpo mais esguio e compacto. A fêmea por sua vez possui um corpo mais baixo e arredondado.

Foto: Mário Barros

Os tubérculos reprodutivos desse macho Ryukin podem ser facilmente observados em seu opérculo, esses pontinhos brancos são mais evidentes durante a época de reprodução e é uma característica exclusiva dos machos. 

Nesse macho Fantail é possível observar os tubérculos reprodutivos em sua nadadeira peitoral, normalmente essa nadadeira é mais grossa nos machos.

Foto: Mário Barros

Foto: Fernanda Akiko

Com a chegada da primavera e o aumento gradual da temperatura, criam-se as condições perfeitas para a reprodução dos kinguios.

Qual a época certa?

Os kinguios foram desenvolvidos em países sazonais e seu pico reprodutivo é na primavera, quando as temperaturas começam a se elevar. A temperatura é um fator decisivo e exerce grande influência no comportamento reprodutivo dos kinguios, sendo o ideal por volta dos 15 - 20°C, o que não quer dizer que o peixe irá se reproduzir prontamente se essa temperatura for mantida constante por todo o ano. O que vai influenciar a reprodução é a mudança gradual da temperatura, da mais fria para uma mais quente. Em países sazonais invernos longos e temperaturas congelantes fazem com que os kinguios entrem em uma espécie de hibernação, praticamente não se alimentam, se movimentam ou mesmo produzem excrementos. Durante essas épocas de extrema escassez os peixes sobrevivem de suas reservas de gordura

obtida nos meses fartos do ano, por isso é importante que o peixe esteja no topo de sua saúde antes de invernar. Após a entrada da primavera, o aumento gradual da temperatura somado a maior acesso a alimentos ricos em proteínas vai estimular o peixe a se reproduzir e ele faz isso com tanto afinco que muitas vezes peixes que saíram do inverno muito fragilizados vão morrer devido ao gasto de energia exigida na reprodução.

Esse aspecto sazonal exerce forte influência na biologia dos kinguios. É sabido que em países tropicais a fertilidade normalmente é menor que em países sazonais e esse relógio biológico é essencial para que o peixe saiba qual é a época correta para produzir a nova geração, o que é de suma importância para que os filhotes tenham oportunidade de crescer e se alimentar, para que fiquem fortes o bastante antes da chegada do inverno e ter de enfrentar longos meses de escassez. Filhotes de peixes que se reproduziram no final do verão por exemplo dificilmente irão sobreviver ao inverno pois não terão tempo suficiente para crescer e acumular gorduras.

Outros fatores como mudanças climáticas, fases da lua ou mesmo de luminosidade costumam ser associados como estímulos para desovas.

Condicionando os peixes para reprodução

Foto: Mário Barros

Preferencialmente machos e fêmeas devem ficar separados na época de reprodução, dando tempo para que a fêmea acumule muitos ovos para uma desova. produtiva.

Pouco antes do início da primavera separo os machos das fêmeas, isso irá evitar que o macho estimule a fêmea a fazer pequenas desovas. É importante que a fêmea tenha tempo para se alimentar, ficar forte e consequentemente produzir centenas de ovos. É muito mais conveniente se dedicar a um lote grande de ovos e alevinos do que a uma série de pequenas desovas. Costumo separa-los (machos e fêmeas) em aquários simples sem decoração e bare botton (sem nada no fundo) no aquário das fêmeas especialmente, plantas e decoração podem estimulá-las a desovar mesmo sem um macho presente. Deixe o termostato desligado durante os meses frios para que os peixes tenham a possibilidade de experimentar essa queda de temperatura. Embora para alguns pareça algo “cruel” a invernagem faz parte da biologia do peixe e não devemos achar que o que é o ideal de temperatura para nós é o ideal para nossos peixes. Nesse último inverno 2018 a temperatura mais baixa registrada nos aquários mantidos dentro de casa foi de 4°C (moro na Inglaterra). Mesmo que na região onde você mora o frio não seja tão intenso, é importante fazer o peixe entender que ele está no inverno, por exemplo, nos meses mais frios deixe a luz do tanque ligada por apenas Quatro ou cinco horas por dia. Após a entrada da primavera ligo o termostato e aumento gradualmente a temperatura nos aquários, cerca de dois graus por dia. Também aumento a quantidade de horas luz de quatro para oito horas e intensifico a alimentação. Será ótimo se puder oferecer bloodworms, minhoca, larva do besouro do amendoim, artêmia, etc, todos alimentos ricos em proteínas.

Quando a temperatura subir para cerca de quinze graus, coloco os reprodutores machos e fêmeas juntos em um aquário para reprodução e faço trocas parciais de água diárias de 50% até que os peixes se reproduzam, o que não costuma demorar mais que dois dias.

Aquário para reprodução

Foto: Mário Barros

Costumo utilizar aquários de 120 -150 litros para reprodução e crescimento dos alevinos nos estágios iniciais. Não precisa de nenhuma decoração, deve ser bare bottom (sem nada no fundo), ou seja, nada de cascalho ou areia... Nesse aquário é essencial que mantenha apenas o que é importante:

  1. Termostato: fundamental para que ajustes de temperatura possam ser efetuados, isso irá estimular os peixes e após a desova irá manter uma temperatura ideal para os ovos e alevinos.

  2. Aerador (compressor de ar): importante para movimentar a água do aquário, quebrar a tensão superficial da água e promover trocas gasosas, as mangueiras do compressor são conectadas a uma pedrinha porosa ou preferencialmente a um filtro esponja.

  3. Filtro Esponja: o sistema de filtragem do aquário de reprodução não pode ser muito potente por isso é recomendado filtro esponja (costumo utilizar dois em cada aquário). A forte circulação de água de um filtro normal pode dissipar e diminuir a eficiência do esperma dos machos durante a fecundação e posteriormente a forte corrente será prejudicial para os frágeis alevinos, sendo assim o filtro esponja é o tipo de filtragem mais utilizado entre os “criadores urbanos” de kinguio.

  4. Superfície para desova: consiste em adicionar no aquário um material para que as fêmeas efetuem a desova. Os kinguios descendem de carpas que em ambiente selvagem procuram por aglomerados de plantas e nelas efetuam a desova. Os kinguios preferencialmente buscam, assim como seus antepassados, por um lugar conveniente para desova. Logo após a desova os ovos irão literalmente se colar e aderir a essa superfície até o momento da eclosão. Costumo fazer Mops de reprodução com linhas de tricô, porém, diversos tipos de material podem ser utilizados com essa finalidade, como sacos de nylon ou plantas como Elodeas ou Cabombas. Além de proporcionar um local conveniente para desova, a adição desse material irá servir como estímulo para que os peixes se reproduzam.

  5. Luminária: costumo utilizar luminária para controlar a quantidade de horas luz que os peixes recebem durante as diferentes épocas do ano.

Tanques externos e lagos artificiais

Foto: Fernanda Akiko

Em tanques externos tanto a temperatura quando a quantidade de horas luz está a mercê dos fatores climáticos de sua região e a reprodução pode acontecer a qualquer momento. Mantenha apenas as plantas ou mops que irá utilizar para reprodução e centralize esse material em apenas um ponto do tanque ou lago, isso irá facilitar a retirada desse material após a desova. Lembrem-se: os kinguios irão comer todos os ovos e alevinos que forem deixados para trás. No caso de reprodução em lagos com grande volume de água e repleto de lugares para se esconder um ou outro irá se safar, mas a regra geral é: se couber na boca do kinguio ele irá comer.

DESOVA

Como mencionado anteriormente, é aconselhável que as fêmeas sejam separadas dos machos, isso irá proporcionar as condições corretas para que ganhe energia e acumule uma quantidade grande de ovos. Quando o criador percebe que a fêmea está “cheia” e pronta para desovar, esse é o momento para colocá-la junto ao macho em aquário para reprodução. É normal adicionar os machos primeiro, algumas horas ou dias antes das fêmeas e assim eles irão ficar acostumados e confortáveis no novo ambiente. Introduzo a fêmea no final da tarde (6–8pm), normalmente os machos já irão demonstrar interesse e iniciar sua incansável perseguição. Durante a noite alimento os peixes com alimentos ricos em proteínas e gorduras como bloodworms, minhocas ou artêmia e na maior parte das vezes, a desova ocorre na manhã seguinte.

Foto: Mário Barros

Uma alternativa de baixo custo para quem está reproduzindo seus peixes é utilizar um pote de plástico ao invés de aquário de vidro. Após a desova os ovos, se mantidos em uma temperatura de 25°C, devem começar a eclodir em 48 horas.

Nessa imagem é possível observar os alevinos recém nascidos e alguns ainda dentro dos ovos. Os ovos esbranquiçados não foram fertilizados e devem ser retirados para não prejudicar a qualidade da água.

Foto: Mário Barros

Os kinguios costumam iniciar a desova bem cedo, ao alvorecer do dia. Os machos irão perseguir (muitas vezes até machucar) as fêmeas até que elas liberem os ovos. Durante a desova os machos fazem a fecundação externa dos ovos com seu esperma. Caso esteja utilizando um sistema de filtragem mais forte que um filtro esponja é recomendado desligar para que a corrente não disperse o esperma, o que irá diminuir o número de ovos fertilizados. Normalmente esse processo pode durar toda a manhã e é aconselhável retirar do aquário qualquer outro peixe que não esteja participando ativamente do processo, por exemplo, outras fêmeas, pois os expectadores irão comer muitos dos ovos. Para quem prefere utilizar o método de reprodução manual esse é o momento certo para isso.

Fotos: Mário Barros

Reprodução manual

A reprodução manual é muito utilizada para otimizar a quantidade de ovos fertilizados e é muito eficaz especialmente se o criador não possui muitos machos ou se pretende tirar cria de um macho específico. Nesse processo, o criador utiliza uma pequena bacia ou pote de plástico e adiciona pequena quantidade de água (do próprio aquário aonde os peixes se encontram), cerca 0.5 cm de altura de água já é mais que suficiente. Primeiro, o macho é retirado e com movimentos suaves entre o ventre e o ânus, o peixe vai liberando o esperma no recipiente escolhido, com a própria nadadeira do peixe o criador faz movimentos circulares na bacia para espalhar o esperma. Após a retirada de uma quantidade razoável de esperma, o(s) macho(os) é colocado de volta no aquário e em seguida o mesmo processo é realizado com a fêmea, uma leve pressão entre o abdômen e o ânus irá fazer com que “rios” de ovos cor de âmbar sejam liberados. Importante fazer movimentos circulares na bacia sempre que retirar os ovos para que eles se espalhem uniformemente, evitando assim, que se aglomerem. Caso os ovos se aglomerem será mais difícil que sejam fertilizados e também irá dificultar a circulação de água entre eles, o que vai favorecer o surgimento de fungos que podem se espalhar e contaminar os outros ovos. Nunca tento espremer a fêmea ou tentar retirar até o último ovo, apenas faço a reprodução manual quando a fêmea já iniciou a desova naturalmente. Retiro a maioria dos ovos e retorno a fêmea para o aquário aonde ela irá finalizar a desova junto aos machos naturalmente nos Mops ou plantas. Muito importante fazer esse processo com cautela e extremo cuidado para não machucar os peixes. Nesse tipo de reprodução, como o volume de água é muito menor que em um aquário ou lago, o esperma ficará concentrado e a quantidade de ovos fertilizados será muito maior.

Não é necessário apertar o peixe, se ovos e esperma não saírem após uma leve pressão entre seu abômem e ânus significa que eles ainda não estão prontos para reprodução.

Em uma pequena bacia coloque um pouco da água do tanque, 0.5 cm de altura de água será suficiente.

Aplicando uma ligeira pressão entre o abdômen e o ânus colete o esperma do macho.

Após a coleta do esperma do macho, repita o mesmo processo para coletar os ovos da fêmea, impostante espalhar bem os ovos para que não fiquem aglomerados.

Fotos: Mário Barros

Os ovos coletados serão mantidos a uma temperatura média de 25°C, a água não deve ficar parada, boa aeração e filtragem são fundamentais, pois ovos não fertilizados e outros compostos orgânicos irão se decompor e fazer declinar a qualidade da água.

Os ovos fertilizados possuem coloração âmbar e os não fertilizados possuem aparência leitosa e esbranquiçada. 

Cuidados com ovos

Após a desova, seja ela natural ou manual, é importante retirar os peixes, pois eles irão comer prontamente todos os ovos que encontrarem. Caso o aquário aonde ocorreu a reprodução natural seja o mesmo que irá utilizar para a eclosão dos ovos e manutenção dos alevinos, retire todos os peixes para seus aquários de origem, regule a temperatura do termostato para 25°C e faça uma limpeza no tanque retirando uma parte de água. Costumo utilizar o sifão para retirar todos os resíduos de fezes e restos de comida e removo água até que essa atinja uma altura de apenas 15 cm, o que é a altura dos filtros esponja que utilizo. Caso os ovos tenham sido coletados manualmente em uma bacia, mantenha os ovos junto ao esperma por cerca de 20 minutos e em seguida remova todo o liquido.  Com água do aquário dos pais lave gentilmente os ovos e depois coloque esse recipiente dentro do aquário, inclinado de uma maneira que os ovos fiquem submersos e que seja possível que a água do aquário circule e não deixe a água do recipiente de coleta ficar estagnada.

É importante circulação de água e filtragem biológica nesse período de incubação. Se os filtros esponja utilizados estiverem devidamente ciclados  irão manter sob controle as toxinas resultantes da decomposição dos detritos orgânicos como resto de esperma ou da decomposição dos ovos não fecundados. Se mantidos a uma temperatura de 25°C os ovos eclodirão em cerca de 48 horas, em temperaturas mais baixas pode se estender por mais um ou dois dias.

Alguns criadores utilizam medicamentos anti-fungo para evitar que os ovos sejam contaminados. A bula do medicamento que pretende utilizar deve descrever que pode ser utilizado para esse fim, na dúvida contacte a central de atendimento da empresa fabricante. Particularmente, embora já tenha utilizado remédios anti-fungo, não vejo muita diferença em eficácia, até porque os ovos quando mantidos em uma temperatura mais alta como 25°C eclodem relativamente rápido, evitando que haja perdas significativas na criação.

No segundo dia os ovos fertilizados irão apresentar uma coloração âmbar, amarronzada e os ovos não fertilizados uma aparência leitosa, esbranquiçada. Esses ovos não fertilizados serão tomados por fungos, alguns criadores retiram esses ovos, principalmente àqueles próximos a ovos saudáveis, porém, como eles se aderem firmemente à superfície onde se encontram, se o processo de retirada for danificar ovos saudáveis, melhor simplesmente deixá-los onde estão. Na tarde do segundo dia será possível observar os embriões dentro dos ovos.

Larvas de kinguio

Após a eclosão dos ovos e do nascimento retire o recipiente utilizado para fertilização e coleta. Todo esse material irá se degradar muito rápido, isso sem contar os ovos não fertilizados que já estão se decompondo desde o primeiro dia. Caso a desova tenha ocorrido nos Mops ou plantas, retire esse material com cuidado, pois muitas larvas costumam ficam presas a eles, o que costumo fazer é retirar os Mops do aquário e colocar em um pote com água do próprio tanque e assim a cada dez minutos retorno para ver se não encontro nenhuma larva.  Se a desova ocorreu no fundo do aquário costumo retira-los com uma pipeta com cuidado para não pegar nenhuma larva no processo, o que é uma tarefa que exige muita paciência. Limpeza, filtragem e circulação de água é chave para o sucesso nessa etapa.

Logo após o nascimento as larvas são muito pequenas, medem cerca de 2-3 mm e irão passar a maior parte do tempo paradas se habituando as condições de seu entorno e irão se alimentar exclusivamente dos nutrientes contidos em sua bolsa vitelina. De vez em quando é possível observa-las subindo à superfície para tomar uma golfada de ar e encher suas pequenas bexigas natatórias, que é o órgão responsável por sua flutuabilidade e essencial para que possam nadar corretamente.

No dia seguinte à eclosão e quando a maioria já estiver nadando livremente, está na hora de alimentá-las e para isso utilizo as seguintes opções:

Cultura de Artêmia. Na manhã seguinte à desova inicie uma cultura de Artêmia a partir dos cistos (ovos). Após a eclosão dos cistos alimente os alevinos com esses pequenos crustáceos. De todos os tipos de alimentação que utilizei, foi com essa que obtive os melhores resultados.

Patê caseiro de ovo e aveia. Uma opção barata e nutritiva, tudo que precisa é da gema de um ovo cozido e aveia. Misture um pedaço de gema pouco maior que uma ervilha com um pouco de aveia e água até formar um patê bem fino. Passe esse patê por uma peneirinha e espalhe os nutrientes pelo aquário. Utilize 1/3 de uma porção do tamanho de uma ervilha três vezes ao dia. Caso tenha uma criação grande, utilize o bom senso e cuidado com a qualidade da água, já que esse ovo não comido irá se decompor rapidamente.

Ovo cozido. Uma das opções mais práticas é simplesmente cozinhar um ovo, retirar a gema e com a ajuda de um tecido bem fino espalhar uma pequena quantidade pelo tanque, é muito nutritivo. O lado negativo da utilização do ovo é que ele polui a água do aquário rápido, principalmente se exagerar na quantidade. Costumo utilizar uma porção que corresponde a 1/3 do tamanho de uma ervilha três vezes ao dia.

Água verde (Green Water). Água de coloração esverdeada que resulta da multiplicação de algas microscópicas, as quais constituem um excelente alimento aos pequenos alevinos. Para saber mais sobre green water 

 

 

Infusórios. São micro-organismos de fácil cultivo e constituem uma excelente opção de alimento para alevinos em fase de desenvolvimento.

Alimentos Industrializados. Ração não é a melhor opção nessa fase tão importante de crescimento onde os pequenos alevinos necessitam de muita energia para se desenvolver, por isso, utilize ração apenas se não tiver nenhuma das outras opções citadas. Com um pilão triture a ração (flake ou pellet) até que forme um pó e depois alimente os alevinos com isso. Existem alimentos exclusivos para alevinos como o Liquifry, e embora sejam uma boa opção, já utilizei ovo cozido que é muito mais barato com melhores resultados.

A partir da terceira semana as larvas já devem estar prontas para alimentos como cyclops, larvas de mosquito ou daphinas. Rações de boa qualidade podem ser oferecidas a qualquer momento e vão constituir a base da alimentação dos peixes a partir do segundo mês.

Fotos: Mário Barros

Após a eclosão dos ovos, os alevinos (larvas) irão passar a maior parte do tempo parados, não é necessário alimentá-los. 

Após 24 horas do nascimento os alevinos já estarão nadando livremente pelo aquário.

Quando a maioria dos alevinos estiverem nadando livremente pelo aquário está na hora de alimenta-los.

Os pequenos alevinos após sua primeira refeição, nesse caso foram alimentados com filhotes de artêmia. 

Manter um ambiente limpo e saudável é chave para o desenvolvimento de suas larvas. Na primeira semana não costumo limpar o fundo do aquário porque as larvas são muito pequenas, então, todo cuidado é pouco. Apenas faço trocas parciais de água, coloco uma esponja no sifão para evitar que elas sejam sugadas e retiro 25 a 50% por dia, dependendo do tipo de alimento que estou oferecendo. Por exemplo, se alimento com artêmia recém eclodida, 25% é suficiente; se for com ovo ou patê no mínimo 50%, já que poluem a água mais facilmente. Reponha a água retirada com outra tratada com anti-cloro e na mesma temperatura. 

Manutenção e Tpa

Uma bucha foi colocada na entrada de água do sifão para evitar que alevinos sejam sugados.

Fotos: Mário Barros

Durante a TPA, reponho a água retirada aos poucos para não estressar os alevinos, nesse caso uma mangueirinha de ar conectada a um balde introduzindo lentamente a água.

Não costumo repor a água de uma só vez especialmente na primeira semana de vida dos peixes. Utilizo um balde conectado a uma mangueirinha de ar no fundo, encho esse balde e por essa mangueirinha pouco a pouco a água irá entrar no aquário dos alevinos. Esse método simples é muito eficaz para evitar que esses peixes tão sensíveis sofram alguma alteração repentina, o que pode fazer com que fiquem com o sistema imunológico baixo e mais propensos a infecções ou parasitas oportunos. Isso mesmo, eles estão lá só esperando um descuido seu.

Após cerca de duas semanas as larvas já estarão maiores e com cuidado é possível fazer uma pequena limpeza de fundo. Sempre com muito cuidado passo uma bucha nos sedimentos e em seguida, com uma pipeta removo a sujeira. Essa sujeira normalmente vem com algumas larvas presas a ela, então costumo colocar os detritos junto com o líquido num potinho e depois as devolvo para o aquário.

Método selvagem de criação

Foto: Mário Barros

Em tanques externos, algas e pequenos organismos serão a base da dieta dos pequenos alevinos. Embora não cresçam no mesmo ritmo dos peixes criados em aquário normalmente a seleção natural irá criar um grupo de peixes muito resistente a condições adversas.

No método natural os criadores de kinguio montam tanques externos onde podem receber luz do sol durante algumas horas do dia. Bem plantados, esses tanques criam um ambiente perfeito para proliferação de algas e outros pequenos organismos do qual as pequenas larvas poderão se alimentar livremente. Sendo assim, a maioria da dieta será composta dos nutrientes que encontrarem no próprio tanque. Caso o sistema seja novo e ainda não tenha água verde ou poucas plantas, alimente as larvas apenas uma vez por dia pela manhã com os mesmos alimentos que utilizaria caso estivessem sendo criados em aquário. 

Os peixes criados dessa maneira estão sujeitos a maiores variações de temperatura e todas as inconstantes que um ambiente natural oferece. Sendo assim, a seleção natural vai favorecer aqueles mais resistentes. Quando criados de modo artificial com temperatura controlada e maior oferta de alimento, as larvas crescem mais rápido e as perdas são menores, porém, quando sujeitas a condições adversas como alterações súbitas de temperatura, normalmente sofrem mais que os criados de forma natural.

Foto: Mário Barros